BEHIND the HOUSE

A minuciosidade do restauro
de obras de arte

Porto Restauro

“Na Porto Restauro tivemos de nos adaptar à variedade de pedidos e para isso a equipa
teve de se tornar multidisciplinar nos seus conhecimentos e trabalhar em parceria
com outras áreas de intervenção.”

Q & A

Entrevista por Maria Ana Marques

No Porto conversámos com a Ana Brito sobre a Porto Restauro, empresa de Conservação e Restauro de Objectos de Arte que surgiu no final dos anos 90.

A Porto Restauro está focada na conservação e restauro de objectos de arte, pintura, escultura, talha, cerâmica e papel. Desta forma, após serem identificadas as patologias de cada obra, a equipa inicia o seu minucioso trabalho propondo as melhores soluções em função das suas características.

A Ana conta-nos que é um trabalho muito desafiante e que toda a equipa está sempre a aprender: “É tão importante conhecer as formas de envelhecimento dos materiais originais das peças, como daqueles que vamos usar na intervenção. As peças modernas e contemporâneas são constituídas por materiais cada vez mais efémeros, difíceis de controlar, e o mercado da arte exige intervenções cada vez mais inócuas, que não desvirtuem a feitura do artista, que estabilizem o conjunto e que não comprometam intervenções futuras.”

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1. Quando e como nasceu a Porto Restauro?
Nasceu no Porto, em 1998, com o objetivo de profissionalizar a atividade de conservação e restauro de objectos de arte.

2. Como é um dia típico no atelier?
O dia-a-dia da Porto Restauro consiste em dar resposta às necessidades dos nossos clientes. Para isso o trabalho é dividido em duas fases. A primeira consiste na elaboração do diagnóstico das peças. A segunda fase consiste na intervenção das obras. Esta é feita em função da primeira, podendo implicar trabalhos prévios de investigação. Para que o trabalho tenha excelentes resultados, cada uma das etapas tem de ser realizada com afinco e correção.

3. Podem-nos contar algo interessante? Por exemplo, qual foi a peça que foi mais desafiante restaurar e porquê?
Ao longo destes 18 anos já encontrámos muitas peças desafiantes. Cada peça apresenta as suas complicações, que vão sendo superadas. Dentro da vasta obra tratada, sem dúvida que há muitos acontecimentos interessantes. Salientamos três obras por diferentes razões. Referimo-nos à intervenção levada a cabo nas pinturas das ilhargas da capela-mor da Igreja Matriz de Freixo-de-Espada-à-Cinta, atribuídas à escola de Grão Vasco, pela importância das mesmas; o tratamento de um tríptico, acrílico sobre tela, de António Charrua por apresentar problemas novos (forte infeção da camada pictórica por fungos). Este caso permitiu a realização de um trabalho de investigação com parceria entre a Porto Restauro e a Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa. Deu origem à apresentação dos resultados na 14ª Jornadas de Conservation de Arte Contemporânea no Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia em Madrid e posterior publicação de um artigo científico nas suas atas. Foi sem dúvida um trabalho desafiante em que se conseguiram obter resultados muito interessantes. E ainda as pinturas atribuídas a Francisco Correia, pertencentes ao espólio da Igreja do Mosteiro de S. Miguel de Refojos de Cabeceiras de Basto. O estado de degradação das duas pinturas era avançado e pretendia-se efetuar uma intervenção pouco invasiva para não se perder as características tão especificas da técnica pictórica e materiais das mesmas. Foi um trabalho extremamente estimulante e com resultados muito bons.

4. Que evolução notam no mercado?
A Porto Restauro tem tido como principal cliente o Estado Português. Em resultado das mudanças consecutivas das políticas de património, porque quase sempre assentam em estratégias económicas, a actividade de conservação e restauro tem passado por momentos muito complicados. Se no passado houve um forte investimento na qualidade técnica das intervenções, actualmente é o valor mais baixo que por norma ganha os concursos, facto que acaba por não estimular a evolução de conhecimentos e o investimento em tecnologia. Por outro lado há experiências interessantes com o mercado dos privados. Se por um lado há um grupo que ainda resiste em valorizar com dignidade esta atividade, há outro que procura compreender a importância das boas práticas. Achamos que estamos numa nova fase de transição e esperamos que agora sejam os privados a procurarem melhores intervenções.

5. Os vossos clientes procuram o mesmo tipo de trabalho que procuravam há 10 anos?
Não, o cliente actual é mais consciente do valor da obra que detém, e das consequências que uma intervenção desadequada pode ter no valor da obra e na conservação futura. Interessa-se cada vez mais pelo processo e é mais sensível a aceitar limitações que a obra impõe à intervenção. Relativamente ao tipo de obras, há uma natural evolução das características das obras que nos aparecem, sendo cada vez mais variadas.

6. Qual a melhor parte do vosso trabalho?
A intervenção nas obras. Sem dúvida que é esta a parte mais satisfatória do nosso trabalho. Recuperar e devolver o equilíbrio físico-químico e estético a uma peça é extremamente gratificante.

7. O que ambicionam fazer num futuro próximo?
Aproveitar todo o conhecimento que se tem vindo a adquirir em ciência dos materiais e conseguir adaptá-lo a novos projetos que vão para além da mera conservação e restauro. Pretendemos produzir objectos que o mercado consuma e assim adicionar outras opções à nossa atividade.

8. Como se imaginam daqui a 10 anos?
Ser uma empresa com capacidade de resposta para questões cada vez mais ligadas ao mundo contemporâneo.

10. Qual o vosso conceito de sucesso?
Dar resposta a uma variedade de questões multidisciplinares ligada à conservação e restauro, com a decoração de interiores e com as artes decorativas em geral. Para isso será importante seguir a lógica da empresa que aposta numa equipa multidisciplinar. É também importante que o grupo de trabalho seja composto por uma variedade geracional e que cada um traga o que há de mais importante da sua geração. A criatividade é um factor de enorme importância, quer para resolver problemas, quer para criar novos produtos.

www.portorestauro.com
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Fotografia por Pedro Lucas