BEHIND the HOUSE

Do outro lado da câmara ficou o fotógrafo
e arquitecto: Ricardo Gonçalves

Ricardo Gonçalves

“Um dia típico? Sinceramente tento que o meu dia seja
o mais tranquilo possível. O tempo passa a correr…
Não deveríamos correr atrás dele.”

Q & A

Entrevista por Maria Ana Marques

Em Lisboa, no seu apartamento minimalista fomos conhecer o Ricardo Gonçalves, apaixonado pelo mar, por fotografia e arquitectura. Com uma chávena de café na mão sentámo-nos na mesa da sala a explicar o Behind the Scenes e a conversa foi surgindo naturalmente. Chegou a vez do arquitecto nos contar um pouco do seu percurso, ali mesmo sentados e com uma descontração nítida introduziu-nos num novo mundo, às vezes nos dias de hoje torna-se raro isso acontecer.

Em 2011, o Ricardo combinou tudo o que mais o entusiasmava na época e fez nascer o SAL – Surf at Lisbon Fest – algo que não existia e que tem sido um sucesso nestes último anos. Contudo, quando questionado sobre os maiores desafios com que se deparou até agora responde prontamente que “o maior desafio é ter uma ideia e leva-la até ao fim. Mesmo sabendo que tudo é possível, por vezes não há energia para que todos os nossos interesses e ideias ganhem forma.” Ricardo tem levado as suas….

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1. Quando e como surgiu a paixão pela fotografia?
Sempre me fascinou. As primeiras fotos que tirei foram com a Rangefinder do meu pai. Uma Yashica dos anos 60. Devia ter uns 8 ou 9 anos. Lembro-me de ficar deslumbrado ao ver as fotografias do meus pais nos álbuns de família.

2. E pela arquitectura?
Em relação à arquitectura foi contágio, cresci em ateliers de arquitectos… Acho que era inevitável. A arquitectura e a fotografia sempre estiveram intimamente ligadas entre elas e ligadas à minha vida.

3. Qual é a tua principal inspiração?
Tudo o que vejo, leio, oiço e sinto.

4. Quem é o Ricardo por detrás das fotografias que capta?
Nunca pensei muito nisso. Sinceramente não sei definir, é basicamente o Ricardo.

5. Acreditas que há uma grande diferença entre um fotógrafo e uma pessoa que tira fotografias. Queres contar-nos o que vos distingue essencialmente?
Sim, creio que há uma enorme diferença…toda a gente hoje em dia tira fotografias. Creio que para se ser fotografo é preciso mais do que uma máquina ou telemóvel que capte imagens, especialmente se olharmos para a fotografia como expressão artística ao invés de apenas um meio de registo… Nesse sentido hoje temos muitas mais imagens mas talvez o mesmo numero de fotógrafos que existiam na “Era” analógica. A meu ver creio que um fotógrafo, no pleno sentido da palavra, é talvez aquele indivíduo que usa uma ferramenta de captar imagens para colocar questões em vez de dar as respostas. A fotografia é uma ferramenta, há quem a use para criar ou para o ajudar a perceber certos problemas e há quem a use para registar… São abordagens diferentes. Uso ambas, mas interessa-me sobretudo a primeira forma de a usar. É por isso que a fotografia me diz algo. Imagens bonitas são fáceis de fazer, basta para isso um local bonito, uma paisagem fantástica, uma mulher ou homem bonitos, etc… Gosto de ver imagens bonitas mas de facto sinto que quando não passam disso são plenas de vazio…um pouco como as pessoas. Podem ser bonitas, mas se não forem interessantes esgotam-se ali mesmo.

6. Conta-nos uma estória que tenha ocorrido em termos profissionais? Daquelas que guardas no baú.
Assim de repente não me estou a lembrar. Provavelmente são todas especialmente aborrecidas… O que me deixa preocupado. 🙂

7. Podes-nos falar um pouco do teu projecto o SAL? Quando e porque começou?
A ideia SAL nasce em 2011. Começou por ser apenas um desejo que tinha como objectivo preencher uma lacuna no nosso panorama cultural. Sou surfista desde muito miúdo e como qualquer puto surfista passava os dias na praia com os amigos ou em casa a ver filmes de Surf. Ou seja, sempre houve o desejo de ver e colecionar esses filmes. Mas de facto vê-los no cinema era impossível. Não havia nada parecido em Portugal. Já existiam festivais de Cinema de Surf em várias cidade do mundo, entre elas, Londres e Nova York… Cidades que nem sequer têm mar, tinham um festival de cinema de Surf. Não fazia sentido não existir um aqui em Lisboa, capital Europeia do Surf… Em nenhuma outra cidade da Europa existem mais surfistas por m2 do que nesta. Um dia enquanto estava a trabalhar no Atelier de Arquitectura, lembrei-me de escrever uma carta ao EGEAC a propor uma ideia nova para acontecer no Cinema São Jorge. Tudo começou aí. Convidei um amigo para me ajudar, o Luís Nascimento, que padece da mesma doença que eu… É Arquitecto e viciado em Surf. Como tudo na vida, desde que tenhamos vontade, faz-se. E fez-se o primeiro SAL em Junho de 2012. Foi mágico. Finalmente pude ver um filme de Surf no ecrã gigante… E de repente milhares de pessoas também o puderam ver. Vamos para a nossa 5ª Edição já no próximo mês novembro de 2016. O tempo passa a correr.

8. O que ambicionas fazer num futuro próximo?
Ter mais tempo para me dedicar aos meus projectos de fotografia. Muitos estão na gaveta.

9. Qual é o teu conceito de sucesso?
Tempo e saúde para dedicares a ti e aos teus. Não há nada mais valioso do que isso.
A ideia de passar 9 ou 10 horas a dedicar o meu tempo aos sonhos e objectivos de outra pessoa em troca de dinheiro é algo absolutamente errado. Infelizmente 90% da sociedade funciona assim, sendo que a maior parte deles não se apercebe disso. Não há mal algum nesse percurso desde que se consiga tirar prazer nele, mas não é sempre isso que acontece. Creio que o conceito de sucesso é de facto chegar ao fim do dia e saber que fizeste o que te apeteceu.

10. Numa frase, como descreverias o Ricardo e aquilo que faz, junto dos outros.
“Life´s to short to drink bad wine…” Li esta frase em Nova York há alguns anos atrás na porta de um bar e quando penso nela, soa-me sempre melhor em Inglês. Basicamente é isso.

https://www.ricardogoncalves.pt
http://ricardogoncalvesphoto.tumblr.com


Fotografia por Pedro Lucas