BEHIND the HOUSE

Eterna harmonia entre
o passado e o presente

Velharias de Janas

“As Velharias de Janas e a Mood4Wood acomodam
confortavelmente na fábrica e no showroom, o resultado
de anos de amor, trabalho e visão. Ferramentas estas que
tornam cada uma das peças únicas e maravilhosas.”

Vídeo por Nuno Miguel

Q & A

Entrevista por Maria Ana Marques

As Velharias de Janas celebram 23 anos de existência e continuam uma empresa de referência no Design e na construção de mobiliário de luxo em madeira maciça bem como na transformação de peças antigas, projetos de arquitetura de interiores e projetos personalizados de casas em madeira. Carlos Brandão Rodrigues e Zina Oliveira dedicam-se também ao restauro de casas antigas ou à construção de novas casas. A Mood4Wood criada por ambos em 2012 surgiu como uma empresa de representação da marca Velharias de Janas.

A loja que encontrámos em Janas, localidade no Concelho de Sintra, divide-se em três partes: a secção do mobiliário onde se podem encontrar as cozinhas, os closets, as bibliotecas; depois há a parte da casa em madeira, que além de servir de showroom é também um mostruário de uma casa em madeira e por fim, ocupando duas das zonas de exposição, podemos descobrir uma secção de peças antigas, de curiosidades, de antiguidades, de peças inventadas e transformadas. Cada peça brilha com o seu passado, cada peça com um tipo diferente de luz mas com inúmeras histórias para contar.

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1. Como vieram parar a Janas em Sintra?
Comecei a negociar velharias com 16 anos, como hobby e paixão ao mesmo tempo que estudava. Comprava peças que mandava restaurar e voltava a vender a antiquários e mais tarde em feiras de antiguidades. Em 1993 aluguei um armazém em Janas, que um antiquário queria deixar, abandonei o curso de Economia e dediquei-me exclusivamente à recuperação e restauro de peças antigas. Janas foi um acaso!

2. Podem-nos contar algo interessante? Por exemplo, qual o objeto que foi mais desafiante modificar?
Ao fim de tantos anos é difícil isolar um objeto, uma vez que todos são desafiantes e todos acabam por ter uma história. Mas, lembro-me que numa das minhas viagens com a Zina pelos estaleiros de demolidores encontrámos uma antiga prensa em ferro maciço. Começámos a sonhar e cada um a imaginar várias possibilidades para a peça. É quase sempre assim, estamos constantemente a sonhar: se fizéssemos isto, ou já viste o que dava para aquilo… Enfim, a prensa com mais de 300kg foi comprada e lá chegou ao nosso armazém umas semanas depois
Entretanto nesta altura tínhamos ganho um excelente projeto de recuperação de uma antiga casa na Malveira da Serra, a Casa Cimani Mani, que tinha pertencido ao Barão Hubert von Breisky. Os novos proprietários, convidaram-nos e começamos a desenvolver um projeto de arquitetura e transformar toda a casa bem como todos os interiores, que estavam em mau estado.
Lembrámo-nos de tornar a prensa numa enorme mesa de jantar, onde a base seria a prensa e o tampo seria um enorme vidro. Até aqui tudo bem, mas a prensa tinha de altura cerca de 90 cm e uma mesa de jantar tem 78. Como pretendíamos que o tampo descansasse elegantemente em cima da prensa, quase como se levitasse, tivemos que colocar dois vidros adicionais a suportar o tampo. Foi desafiante juntar estes dois materiais, ferro e vidro como se tivessem nascido para estarem juntos. A prensa, com mais de 100 anos esquecida num canto de um estaleiro voltou a ter vida.

3. Onde e de que forma surgem os artigos/objetos que alteram?
Os objetos que transformamos encontramo-los um pouco por todo o lado. Ao fim de tantos anos é normal que conheçamos dezenas de pessoas, antiquários, demolidores, ferro velhos, particulares, um pouco por todo o mundo, que visitamos constantemente e muitos deles, sempre que têm alguma peça diferente e especial contactam-nos.

4. Quais os artigos mais interessantes que podemos encontrar na loja?
A loja está sempre a mudar, e são as peças que a fazem ficar mais ou menos bonita, mas encontramos sempre curiosidades, desde uma bomba de gasolina antiga original, um molde de uma quilha de um veleiro com 6 metros, excelente para fazer de side-bord, uma cadeira antiga de barbeiro, entre outras.

5. Qual o processo mais desafiante na altura de redesenhar as peças?
Depende muito da peça que temos à nossa frente. É fundamental perceber qual é o fim a que se destina e conseguir sempre o equilíbrio e o bom gosto. Se estamos a lidar com uma peça antiga é importante respeitá-la e conseguir que o que de novo fazemos se equilibre com o que já existia, com o nosso olhar.

6. Porquê o nome Mood4Wood?
Escolher um nome para uma empresa é sempre um grande desafio: temos que perceber se queremos que o nome se associe ao que fazemos, ao que a empresa faz, se queremos um nome apelativo ou não. No nosso caso pretendíamos que o nome estivesse intimamente ligado ao que fazemos, daí Wood (madeira) que é a base do nosso trabalho. O Mood e o 4 (four) em inglês é uma brincadeira , um jogo que achámos interessante e diferente. Sentimos que o nome tem boa energia.

7. Que evolução notam no mercado? O que acham que se mantém e o que se mudou?
Pensando nos últimos 23 anos, desde a criação da VJ, sinto algumas mudanças em relação à forma como muitas pessoas encaram as casas, os seus interiores e ambientes. Em Portugal existiu nos anos 90 uma procura muito grande por casas no campo, por montes no Alentejo e isso criou uma procura por mobiliário mais rústico. Fizemos dezenas de obras em casas e herdades fora das cidades. As pessoas queriam sair das cidades, estar mais em contato com a Natureza. Com a crise que entretanto sentimos na Europa, no Mundo, entrou-se um pouco na procura do low-cost, na reciclagem, na procura de materiais alternativos com qualidade e duração menores mas perfeitamente adequados às novas exigências. Se, por um lado, esta nova forma de pensar me fascina, porque nos obriga a não ter limites, a criar constantemente, por outro, como sou apaixonado pelo qualidade e construção dos materiais apercebo-me que muitos deles são deficientes e de duvidosa qualidade, mas como também neste mercado se aplicam algumas regras da natureza, creio que o que é bem feito e tem qualidade vai sobrevivendo enquanto que outros assim como surgem, desaparecem sem deixar saudade.
Uma mudança bastante significativa que notamos nos últimos anos prende-se com a enorme procura por casas em madeira.

8. Qual a melhor parte do vosso trabalho?
Creio que a melhor parte é sem duvida o processo criativo por que passamos diariamente. É uma sensação muito gratificante sonhar, projetar um espaço, construi-lo, acompanhar cada fase, cada dificuldade, cada alteração. Sentimos que cada projeto que fazemos, seja uma casa em madeira, o restauro de uma casa ou os seus interiores, a construção de uma cozinha ou restaurante, ou uma simples peça que desenhamos ou transformamos é mais uma obra que deixamos, que tentamos que não seja só mais uma.

9. O que ambicionam fazer num futuro próximo?
Iremos continuar a desenvolver o nosso trabalho como se o futuro fosse hoje. Estamos a trabalhar neste momento num outro novo projeto: uma nova forma de construir casas, que no nosso caso, mais uma vez, passa por conseguirmos incorporar toda a experiência e sabedoria que adquirimos ao longo dos anos. Claro que, mais uma vez, como se costuma dizer que está tudo inventado, incorporar o nosso olhar, a nossa forma de interpretar e de criar essas novas casas…e mais não posso dizer…

10.Como se imaginam daqui a 10 anos?
O Tempo é um conceito complexo. Obriga-nos a sair, a sonhar aquilo que não vivemos ainda ou a recordar o que já vivemos. Pela minha parte gosto de me centrar no presente porque é o que vivo. Mas saindo e imaginando-nos daqui a 10 anos, espero que cada um de nós sinta o que sentimos hoje, um enorme prazer em ter a sorte de fazer o que fazemos com a liberdade que fazemos. Espero igualmente que continuem a surgir constantemente novos desafios, novas etapas para sentir que continuamos a aprender, a evoluir e a fazer cada vez melhor.

11.Qual o vosso conceito de Sucesso?
Há cerca de 10 anos achei que era importante reunir todos os colaboradores da VJ durante três dias numa espécie de retiro de trabalho, onde poderíamos discutir e dar opiniões e soluções para a melhoria da empresa. Assim foi, rumámos para o Algarve e lá nos fechámos durante três dias. Lembro-me no meio das nossas conversas e discussões que me saiu uma frase que ficou gravada até hoje:
“Uns fazem-no por defeito, outros fazem-no por excesso, nós temos o defeito de fazer por excesso”. Aquilo que realmente é o nosso conceito de sucesso é a paixão, o amor, a dedicação, o esforço, o empenho e a vontade de fazer bem, diferente, acreditando sempre que é possível.

www.velharias-janas.pt


Fotografia por Pedro Lucas