BEHIND the LIFESTYLE

Sem limites, a origem dos sonhos pertence à música

João Neves | Sensi Guitar

“Afinal a vida é como um jogo, os desafios vão sempre aparecendo e o que entusiasma é irmos ganhando capacidade dos ultrapassar.”

Q & A

Entrevista por Maria Ana Marques

O João tem 23 anos, é licenciado em Música Electrónica e Produção Musical pela Escola Superior de Artes Aplicadas de Castelo Branco e é natural de Alcobertas, uma freguesia no concelho de Rio Maior. O jovem confessa que não gosta de estar muito tempo no mesmo sítio, gosta de novos desafios, conhecer novas pessoas, novos locais…

E como surgiu a paixão pela música? “Não sei bem, acho que nasceu comigo, foi crescendo lentamente e de repente tornou-se quase descontrolada. Sendo eu o mais novo de quatro irmãos sempre ouvi muita música porque eles ouviam… Mas foi tudo de uma forma muito inconsciente.”

Consciente que temos de encontrar quem nos ajude a tornar as coisas realidade e de que vivemos num mundo em que é muito fácil chegar a quase todas as informações, há que aproveitar e “temos de ir ler, pesquisar, aprender, não podemos ficar à espera que a informação chegue até nós simplesmente, temos que fazer por a encontrar”.

Durante um estágio em Itália desenvolveu o grosso do software que hoje é a base do seu projecto. Foi percebendo que este gosto por equipamentos personalizados não era só seu e que talvez pudesse ser uma boa vertente de negócio.

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1. Em que consiste a Sensi Guitar?
Trata-se de uma guitarra em tudo semelhante a todas as outras, com a particularidade de ter sido desenhada e construída por mim e para mim, com a ajuda do meu cunhado no trabalho das madeiras e no desenho da cabeça.
Digo para mim porque todos os relevos ergonómicos foram feitos tomando por base o meu próprio corpo e a disposições de todos os controlos tiveram em conta as formas de interação que idealizava.
Para além da parte normal da guitarra que pode funcionar com qualquer sistema de guitarra elétrica, a Sensi Guitar tem um outro sistema paralelo – um controlador MIDI construído e programado por mim, que usa alguns tipos de sensores e interfaces que julguei interessantes (como sensores de força, proximidade, botões momentâneos, etc.). Assim, posso usar a interação com o processamento do som da guitarra de uma forma criativa, sem perder a mobilidade que um instrumento como este tem associado. Os próprios sensores também foram escolhidos de acordo com aquilo que achei que podia ser interessante no âmbito de uma guitarra para que a sua interação, por si só, possa trazer algo de novo. Sendo um controlador MIDI e, especialmente conjugando com o software/setup que construí em jeito de protótipo, para usar enquanto músico, posso guardar definições com a informação do que cada controlo está a fazer. Essas definições podem mudar da forma que eu entender e isto sem se limitar apenas ao som da guitarra, podemos “dizer” que numa definição o sensor de força controla um efeito no som da guitarra, numa outra no som da voz e numa outra no som da banda toda. Um dos próximos passos será avançar para outros aspetos de uma performance como luzes ou vídeo.

2. Porque concorreste ao Startup Lisboa Momentum?
Concorrer ao Startup Lisboa Momentum foi mais um dos muitos acasos. Todo este sistema, começando na Sensi Guitar, foi feito a pensar nas minhas necessidades enquanto músico e naquilo que achava serem necessidades para músicos que conheço pessoalmente ou que oiço. Foi sobre estas premissas que fui desenvolvendo todo o trabalho, exatamente com o objetivo de eu, enquanto músico, o usar.

3. Como te sentiste na fase de seleção? Sempre acreditaste que o teu projecto poderia ser reconhecido da forma que foi?
Não vou estar com falsas modéstias e dizer que não acreditei, se não tivesse acreditado nunca tinha concorrido. Na altura li que haveriam três bolsas e pensei que poderia ter alguma hipótese de conseguir uma delas, mas nunca pensei que fosse eu o escolhido no caso de ser apenas uma não por não acreditar no meu trabalho, aliás sou muito exigente comigo próprio e muito ambicioso, mas porque nunca pensei que algo como a Startup Lisboa e todas as entidades envolvidas no Momentum apostassem num projeto ligado à música ou à cultura em geral porque todos nós sabemos que no nosso país a cultura não é algo extremamente rentável e lucrativo.

4. Como é normalmente um dia típico teu?
Quase que posso responder com outra pergunta. O que é isso de um dia típico? É-me bastante difícil descrever um dia meu, talvez seja mais fácil dizer que eles são normalmente atípicos! Não gosto de estar parado, nem que tudo corra como esperado, acho pouco desafiante. Como acima de tudo sou um apaixonado por música começo por vezes a sentir-me perdido porque o meu trabalho é música, voluntario-me para coisas ligadas à música (escrevo para a Arte-Factos e colaboro com uma organização de concertos em Rio Maior, os Maiorais), oiço muita música o dia todo e quando ando pela rua tudo o que oiço oiço-o como se estivesse num concerto, todos os sons são a obra que estão a tocar para nós.

5. Quais têm sido os maiores desafios até agora?
Os maiores desafios até agora talvez sejam tratar das partes a que costumo chamar mais burocráticas e de divulgação, são coisas nas quais de todo não me sinto à vontade e que por vezes fico com receio de estar a avançar sem ter tudo acautelado acabando por a longo prazo perder mais do que ganhei. Para além disso como não sou um especialista em eletrónica, tendo construído a Sensi Guitar e outros equipamentos tomando por base pesquisas na internet, por vezes é um desafio perceber e solucionar os problemas que vão aparecendo, mas é algo que me entusiasma porque os desafios que vou resolvendo vão-me dando experiência para mais fácil e rapidamente perceber o que está a causar os problemas

6. Que conselhos darias a alguém que tem o sonho de apostar num projecto próprio?
Antes de mais acho que é importantíssimo que esse projeto lhes seja entusiasmante e interessante em termos pessoais, por aí vai haver sempre muito mais disponibilidade para lutar contra todas as adversidades que vão aparecendo. Também têm que acreditar na sua ideia mais que toda a gente, isso vai ajudá-los a desenvolver e a encontrar respostas e soluções para as criticas. Por vezes é nos fácil desistir por acharmos que não temos capacidade para fazer acontecer as coisas e, especialmente no nosso país, temos tendência a achar que ninguém nos vai ajudar naquilo em que temos dificuldades e não estamos à vontade e acabamos por entrar numa espiral de criticar negativamente tudo e todos. Não nos podemos agarrar a tal, é óbvio que todos nós temos opiniões acerca das coisas mas temos de conseguir não ficar presos a achar que não há apoios.

7. O que ambicionas fazer num futuro próximo?
Ambiciono pôr este e outros projetos a andar por pernas próprias. Para já, mais que criar coisas novas, é essencial divulgar o projeto que me trouxe para a Startup Lisboa em particular, resolver questões legais, planear as coisas de forma cautelosa e com ajuda de quem é mais experiente que eu. Depois o objetivo é continuar a espalhar a palavra, convidando músicos a experimentar, etc. e quem sabe aproveitar os meus projetos criativos, como os Euterpe (uma banda de que faço parte e que, apesar de ainda não muito divulgada, em termos internos já tem algum material e está mais “avançada”) e outros projetos criativos que estão a sair da gaveta, para divulgar este projeto (já que o uso nesses projetos criativos), juntando assim o útil ao agradável e divulgando também a minha carreira musical.

8. Como te imaginas daqui a 10 anos?
Espero continuar a ter muitas ideias e que dessas ideias tire umas quantas realmente boas. Espero poder estar a fazer música e a ajudar os outros a fazê-la também, acho que esse é o meu verdadeiro objetivo de vida e gostava de poder correr o mundo, conhecer diferentes pessoas e diferentes culturas graças a isso.

9. Qual é o teu conceito de sucesso?
Talvez possa soar um pouco cliché, mas o meu conceito de sucesso é poder fazer aquilo que mais gosto, que basicamente é o que faço agora, acho que se o fizer e conseguir viver disso serei feliz independentemente de épocas com mais ou menos dificuldades. Fazer música e ajudar os outros a fazê-la acho que é o meu verdadeiro conceito de sucesso.

10. Numa frase/palavra, como te descreverias?
Sou teimoso, persistente e não desisto facilmente do que acredito.

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https://twitter.com/joaonunoneves
https://soundcloud.com/jo-o-neves-3


Fotografia por Pedro Lucas