BEHIND the TABLE

Nos encantos de Marvão 

Melara Picado Nunes | Lagar Museu

“O lagar de azeite é um negócio de família que esteve parado uma década, devido à idade avançada dos meus avós. Com todo o sentimento envolvente e porque o meu avô durante muito tempo dizia que eu era o futuro disto, resolvi dar continuidade ao lagar.”

Vídeo por Nuno Miguel

Q & A

Entrevista por Maria Ana Marques

Logo pela manhã iniciámos o caminho em direção a Marvão, mais precisamente para Aldeia de Galegos. Fomos convidados a visitar o Lagar e o Museu Melara Picado Nunes.

O António adora desafios e considera-se persistente e assume também que trabalha muito para os alcançar: “Acho que a minha maior força e virtude é o trabalho”.

Em 2010 nasceu o novo conceito de Lagar, com a gestão do António, num espaço renovado onde sem se esquecer o passado, se continua a produzir o néctar dourado extraído a frio e se cria a marca Azeite Castelo de Marvão. O Museu, esse pode-se dizer que foi um sonho tornado realidade. Visto que esta região tem um cunho muito vincado da sua família, resolveu recriar um Museu no lagar antigo do avô, a sua principal influência. “Foi a forma que encontrei para agradecer o grande impulso que o meu avô me deu para gostar disto, da terra.”

O Lagar e o Museu são dois projectos distintos. Devido a todo o sentimento envolvente, e porque o avô durante muito tempo lhe dizia que ele era o futuro de tudo aquilo, resolveu dar continuidade ao Lagar. Posteriormente e achando que era uma mais-valia para aqueles que o procuram durante a época de “apanha”, bem como de produção de azeite, resolveu também criar uma série de serviços, que servem de ajuda a todos aqueles da região que querem desenvolver a sua própria marca de azeite.

No final da tarde, o António diz-nos “Em ambos os projectos, não sinto que arriscar seja a palavra indicada. Não é um risco, é um gosto profundo pela vida de campo, pela liberdade que esta me dá, e claro está por todo o sentimento envolvente. Aqui sinto-me verdadeiramente livre.”

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1. Porque surgiu o interesse em continuar o negócio de família?
O interesse pelo negócio da família começou essencialmente pela admiração que sentia pelo meu avô. Desde cedo que me despertou o “bicho” pelos seus negócios, pelo Lagar de Azeite, bem como por todo o negócio envolvente. Apesar de ter nascido em Lisboa, passava grandes temporadas em casa dos meus avós. Aqui, no campo, sinto-me livre.

2. Qualquer pessoa pode visitar o Museu? O que deve fazer?
Qualquer pessoa o pode fazer, basta agendar uma visita. Estas são feitas 2 ou 3 vezes por semana. O encanto da visita é ser feita por mim. Para além disso, a parte crucial da visita é um tasting que faço com todos os visitantes no final. Infelizmente os produtos regionais de qualidade só estão disponíveis 2 dias por semana.

3. O que distingue o vosso azeite?
A história da minha família, o que leva a que o meu azeite seja praticamente um produto único em termos sentimentais. Tudo o que é feito com sentimento tem outro gosto. Em termos de processo, graças a Deus as minhas oliveiras estão em território de reserva natural, logo o fruto é especial e claro está que o processo desenvolvido é muito mais moderno.

4. Que influência é que este tipo de projectos tem na localidade?
Imensa. Tem muita influência a vários níveis e afecta vários sectores sociais da região.
Em primeiro lugar, e aquele que dou mais valor, é que desde a abertura do Lagar e do Museu consegui criar mais postos de trabalho. Muitos deles, ainda que sazonais, mas para uma região que tem um taxa de desemprego brutal. Eu só contrato pessoas da terra porque estas são a minha prioridade. Quando penso em Marvão e principalmente em Galegos, penso que muitos abandonaram a terra por falta de condições e apoios. Tiveram que procurar melhores condições de vida fora daqui. Percebo perfeitamente bem essa situação, mas sinto uma certa angústia quando isso acontece. Então se eu conseguir criar trabalho e boas condições as pessoas vão retornar a esta terra maravilhosa.
Em segundo lugar, através da minha marca consegui fazer crescer o nome da região. E raras eram as vezes que se falava de Marvão, hoje fala-se por vários motivos, primeiro por causa do azeite que produzo, Azeite Castelo de Marvão; depois por vários eventos que vão, ao longo da última década acontecendo em Marvão com um taxa de sucesso enorme.

5. Quais foram os primeiros obstáculos?
Excesso de burocracia. Infelizmente o poder está nas mãos daqueles que não têm horizontes longínquos para este maravilhoso Alentejo. Conquistar um lugar no mercado, cada vez é mais concorrêncial e os produtos com categoria superior ainda não têm espaço na “prateleira”. Depois tive todos os impedimentos gerais que infelizmente o meu país cria a todos: falta de infraestruturas básicas como luz, água, tratamento de esgotos e telefone. Os problemas de um estado rural, que pretende que o seu país de uma qualidade extrema não se desenvolva. Lembro-me sempre do Marcelo Caetano, aquando da chegada da democracia, que em 30 anos ficaríamos resumidos a um nada, quando o nosso potencial é extraordinário.

6. Quais têm sido os maiores desafios?
Manter o legado do meu avô. Esse tem sido o principal desafio. Mas o grande objectivo e por consequência desafio é conseguir levar o nome desta terra além, pelo sabor. O azeite é o futuro ouro do mundo. É um bem essencial que muito poucos têm acesso. E digo-te isto em termos mundiais, e não nacionais. Ensinar o consumidor a distinguir azeite.

7. O que ambicionas fazer num futuro próximo? Que planos tens em agenda?
Imensas coisas. Mas o que pretendo mesmo é continuar este projecto que ainda está com um volume de negócio “pequeno”, conseguir que o meu azeite tenha uma maior receptividade no mercado, apesar de ser produto gourmet, e explorar as grandes potencialidades desta região. Vem aí um novo projecto, que será uma extensão do Museu, e por consequência do Lagar. Mas ainda está no segredo dos Deuses.

8. Como te imaginas daqui a 10 anos?
Espero que seja em menos tempo. Mas pretendo estar a viver neste sítio maravilhoso, casado, com três filho Antónios. Apesar de não ter pretensões políticas, gostava de ajudar este cantinho do norte alentejano, a crescer ainda mais.

9. Qual o teu conceito de sucesso?
Só se chega ao sucesso com trabalho, muito trabalho. Acho que a palavra em si é muito vaga. Porque se hoje consegui atingir o sucesso, amanhã o meu objectivo será outro e terei que correr para atingir um novo sucesso. Acho que o homem nunca está satisfeito com o que tem, é por natureza insatisfeito, e então está sempre à procura de novos desafios para atingir a plenitude, que no caso dos negócios se chama sucesso.

10. Numa frase, como descreverias este projecto junto dos outros?
Roberto Shinyashiki disse uma vez, “Tudo o que um sonho precisa para ser realizado é alguém que acredite que ele possa ser realizado.”

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Fotografia por Pedro Lucas